Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Violino & Oboé
Johann Sebastian Bach tinha o hábito de transcrever concertos. Esse era, aliás, um
costume dos compositores da época (Haendel e Vivaldi eram mestres nessa reciclagem musical). Por exemplo, Bach transcreveu vários concertos de violino de Vivaldi para o cravo. Também re-escrevia seus próprios concertos. De violino pra cravo. De oboé pra cravo...
Na maioria das vezes a transcrição chegou ao nosso tempo, mas o concerto original se perdeu. Assim os especialistas precisam estudar a partitura, e, a partir dela, reconstruir o que teria sido...
E assim foi o concerto pra violino e oboé, em Ré menor, BWV 1060. Um magnífico concerto em 3 movimentos, interpretado pelos músicos da Europa Galante, liderados pelo violinista Fabio Biondi.
J. S. Bach
Concerto para Violino e Oboé em Ré menor, BWV 1060
Fabio Biondi, violino
Alfredo Bernardini, oboé
EUROPA GALANTE
Sábado, 8 de Agosto de 2009
Tudo com Deus
Madonna? Jonas Brothers? Amy Winehouse? Não. A grande novidade da indústria
fonográfica em 2008 foi o grande popstar da música barroca, Johann Sebastian Bach.
Em maio de 2005 foi encontrado, na biblioteca da duquesa Anna Amalia de Saxe-Weimar, uma partitura perdida. A ária, composta pra soprano, cordas e baixo contínuo, fora escrita por J. S. Bach para o aniversário do duque Guilherme Ernesto, em 1713. A discoberta surpreendeu o mundo, não somente pelo compositor, mas pela sublime beleza da peça.
Alles mit Gott und nichts ohn' ihn (Tudo com Deus e nada sem Ele) teve sua primeira gravação em 2008, na voz da soprano Elin Manahan Thomas, acompanhada pelos English Baroque Soloists, regidos pelo talento de John Eliot Gardiner. O CD que trouxe aos nossos ouvidos essa jóia foi um grande sucesso de vendas, e não só por essa nova ária, mas pela extrema qualidade das demais faixas,
todas trechos de cantatas e árias do velho Bach.
Hoje temos, portanto, a oportunidade de ouvir a magnífica interpretação desta nova ária (a última descoberta de uma nova obra de Bach tinha sido em 1935). A prova final de que, mesmo após quase 250 anos de sua morte, J. S. Bach ainda pode nos surpreender! Ele nunca perde o jeito...
Alles mit Gott und nichts ohn' ihn
BWV 1127
- 1
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher Wundersegen ziehn.
- Denn Gott, der Wunder tut im Himmel und auf Erden,
- will denen Frommen, selbst, zum Wundersegen werden.
- Der Mensch bemühet sich, will Wunder viel verrichten,
- und voller Unruh ist sein Sinnen, Denken, Dichten.
- Soll einher Wundersegen ziehn.
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 2
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher Jesus’ Segen ziehn.
- Der groβe Segensherr kann rechten Segen bringen,
- tritt er nur in das Schiff, so muβ es wohl gelingen.
- Wär’ aller Segen gleich vorhero weit entfernet,
- Wohl dem, der dieses wohl bei seiner Arbeit lernet:
- Soll einher Jesus' Segen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 3
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher Landessegen ziehn.
- Mit Gott muβ alles sein, soll’s Landesherrn geraten.
- Ach segne, lieber Gott, im Lande Rat und Taten,
- daβ sich das ganze Land in Ruhe des erfreuet,
- in vollen Segen liegt und diesen Schluβ verneuet:
- Soll einher Landessegen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- 4
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher Himmelssegen ziehn.
- Du, Gott des Himmels, kannst den Himmel ja erhören,
- es kann dein Himmelsschoβ Korn, Most und Öl bescheren,
- wenn Regen, Sonnenschein zur rechter Zeit sich küssen
- wenn Erd und Himmel lacht und man wird sagen müssen:
- Soll einher Himmelssegen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- 5
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher edlen Segen ziehn.
- Ein Schatz und Horn des Heils, voll edler Frucht der Erden,
- soll von der Allmachtshand in Schoβ geschüttet werden.
- Da kann vom Himmelstau man edle Früchte brechen,
- die Sonn und Mond gebärn, daβ edle Seelen sprechen:
- Soll einher edler Segen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 6
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher Lebenssegen ziehn.
- Der Lebensfürst verheiβt Gesundheit, Segen, Leben
- wo Brüder Eintracht lebt, will Lebenskräfte geben.
- Des Menschen Lebensburg viel Feinde stets befehden,
- sein Tun ist voller Müh und niemand kanns ausreden.
- Soll einher Lebenssegen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 7
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher manchen Segen ziehn.
- Mein Gott, du kennest ja und zählest alle Schritte,
- ach! höre doch, was ich im ganzen Leben bitte
- Nichts ohne dich, mit dir, mein Alles anzugehen
- so bin ich schon vergnügt, der Spruch wird feste stehen:
- Soll einher mancher Segen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 8
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher ew’gen Segen ziehn.
- Was ist das Irdische? Ein Schatten, der verflieget
- und den das Himmlische unendlich überwieget.
- Dies alles, jenes nichts. Wirst du sie beide prüfen
- Gott muβ der Leitstern sein, willst du dich nicht vertiefen
- Soll einher ew’ger Segen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 9
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher reichen Segen ziehn.
- Ein Gott, der überreich, wird überschwänglich schenken,
- weit über das, was wir verstehen, bitten, denken.
- Was Welt für Reichtum hält, kann schwinden und zerrinnen.
- Ich weiβ schon, wie ich soll des Segensreich gewinne:
- Soll einher reicher Segen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 10
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher neuen Segen ziehn.
- Weil seine Güt und Treu das Morgenlicht verneuet,
- und er die Seine gern mit neuer Kraft erfreuet,
- ihn halt ich, laβ ihn nicht, er wird auf’s neue walten;
- was ohne Gott geschicht, muβ alles bald veralten.
- Soll einher neuen Segen ziehn,
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 11
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher Seelensegen ziehn.
- Der Leib, die Seele nicht, doch keines wird verderben.
- Sie sind in Gottes Hand, wer glaubt, soll nimmer sterben.
- Was hilft’s, wenn ohne Gott in Gold sich manche baden?
- Die Welt ist ihr Gewinnst, die Seele nimmet Schaden.
- Soll einher Seelensegen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
- 12
- Alles mit Gott und nichts ohn’ ihn
- wird einher tausend Segen ziehn.
- Gott Vater, der du wohnst, wo tausend Chöre tönen,
- ach! laβ, durch mein Gebet, in Christo dich versöhnen.
- Dein Geist, mein Herz und Sinn in allen dahin lenke:
- Nichts ohne dich, mein Gott, hilf, daβ ich stets bedenke.
- Soll einher tausend Segen ziehn,
- alles mit Gott und nichts ohn’ ihn.
* * *
Johann Sebastian Bach
Alles mit Gott und nichts ohn' ihn
BWV 1127
Ária para soprano, cordas e BC
Elin Manahan Thomas
The English Baroque Soloists
John Eliot Gardiner
Sábado, 1 de Agosto de 2009
Tomaso!
Hoje, neste concerto no auditório da Academia, homenageamos mais um compositor italiano: Tomaso Albinoni.
Já apresentamos, de autoria dele, um concerto para oboé e orquestra. Hoje trazemos ao público outra belíssima (e breve) obra do "autor" do Adagio. O Concerto em Sol Maior, Opus V, n. 4. De uma melodia encantadora e uma simplicidade brilhante, escutemos agora esse admirável momento do "playboy da música".
* * *
Tomaso Albinoni
Concerto em Sol Maior
Opus V, n. 4
Collegium Musicum 90
Simon Standage
Sábado, 25 de Julho de 2009
A grande estrela: o Violino
O violino é, indiscutivelmente, um dos instrumentos mais populares e requisitados da
atualidade. Desde seu surgimento, o papel do violino veio crescendo ao longo do tempo, e fez com que se destacasse dos demais instrumentos de sua família (da qual também vieram viola, violoncelo e contrabaixo) e adquirisse um papel de solista, especialmente a partir do século XVIII. Essa é a época de Corelli, Tartini, Vivaldi e Bach.
Mais tarde os concertos vão ganhando outros contornos, e o gênio de Mozart e Beethoven produzem grandes obras musicais tendo esse instrumento como protagonista.
No começo do século XIX, na época do Belcanto, Paganini renova a técnica do instrumento, e com uma personalidade única escreve concertos tão difíceis quanto
musicalmente leves e despretensiosos. Nesse mesmo século XIX o violino se tornou instrumento solista dos grandes concertos românticos, apaixonados - no sentido original da palavra - como os concertos de Mendelssohn, Vieuxtemps, Brahms, Tchaikovsky, etc.
Mas além dos concertos, o violino também recebeu em sua honra peças menores (mais breves), que em nada deixam a dever em emoção e intensidade às obras de maior duração e com vários movimentos. São as peças de concerto para violino e orquestra.
Hoje apresentamos três obras orquestrais que contam com o protagonismo do violino. As três são de autoria de Camille Saint-Saëns, um dos maiores compositores da França no século XIX. Em outra oportunidade falamos mais desse gênio de melodias inigualáveis. Agora vamos escutar a deliciosa e tenebrosa Dança Macabra, e as peças de concerto Havanaise e Introduction & Rondo Capriccioso. Absolutamente lindas!¨
* * *
Camille Saint-Saëns
Havanaise
Royal Philharmonic Orchestra
Charles Dutoit
Kyung Wha Chung - Violino
* * *
Camille Saint-Saëns
Introduction & Rondo Capriccioso
Royal Philharmonic Orchestra
Charles Dutoit
Kyung Wha Chung - Violino
* * *
Camille Saint-Saëns
Danse Macabre
Philharmonia Orchestra
Charles Dutoit
Sábado, 18 de Julho de 2009
Magnificat
"Minha alma engrandece o Senhor...". Assim responde a virgem Maria à saudação de sua prima Isabel. Mesmo os não-crentes podem sentir a beleza e a profundidade das palavras da jovem, narradas por Lucas no Novo Testamento. Frases como "derrubou os poderosos de seus tronos, e exaltou os humildes" e "saciou de bens os famintos e despediu os ricos sem nada" mostram um profundo clamor social de justiça, e uma imensa esperança num novo tempo, agora presente pela chegada do Salvador.
O texto latino, musicado por diversos compositores ao longo dos últimos séculos, encontrou sua versão mais aclamada no maior luterano da história: Johann Sebastian Bach. Bach costumava, como se fazia uso, musicar textos alemães em suas obras religiosas. Mesmo em suas grandes obras fazia uso de sua língua vernácula, como fez em suas Paixões. No entanto, preferiu fazer uso do velho latim para exaltar o poder e a glória de Deus no chamado "cântico de Maria".
O texto evangélico encontra tradução musical com o gênio de Bach. A palavra "magnificat" (engrandece) é repetida pelo coro e ressaltada com toda a força pelos trompetes, assim como mais tarde fará no "fecit potentiam" (mostrou a força). As árias são simples e belas, como a jovem que as proferiu. Os coros são profundos e grandiosos, como anunciando o futuro daquela garota pobre e inexperiente. A conclusão com o Gloria Patri combina as vozes ascendentes em direção ao céu e a volta do tema inicial, fechando a obra de maneira arrebatadora.
O Magnificat em Ré Maior (BWV 243) foi composto no Natal de 1723, e a versão atual foi preparada para a festa da Visitação. Teve sua primeira apresentação na Thomaskirche de Leipzig, em 1733.
* * *
Magnificat anima mea Dominum
Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo.
Quia respexit humilitatem ancillæ suæ:
ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.
Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius.
Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum.
Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui.
Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles.
Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes,
Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ,
Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula.
Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum.
Amen.
* * *
J. S. Bach
Magnificat em Ré Maior
BWV 243
Le Concert d'astrée
Emmnuelle Haïm
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Vive le Roy!!!
Em 14 de julho de 1789, o povo de Paris derrubou o grande símbolo do poder real francês: a fortaleza da Bastilha, onde estavam encarcerados aqueles considerados inimigos do rei. Aquele não era (e nem tinha a intenção direta de sê-lo) o fim da monarquia: o rei Luís XVI só seria morto em 1792. Também não seria o último monarca, pois em 1814 o irmão dele, Luís XVIII, assumiu o trono após a prisão de Napoleão Bonaparte.
Mas após quase 1300 anos de monarquia, a realeza francesa - a mais antiga e mais nobre da Europa - já estava permanentemente arraigada na história. Sua herança era o próprio Estado francês, e seus símbolos, como o palácio de Versalhes, continuam a impressionar.
Hoje, no dia mais importante da França, fazemos homenagem à monarquia que gerou e fez daquele país uma grande potência mundial. Relembramos a música dos reis, com o instrumento "real" por excelência.
Ao mesmo tempo, é essa peça musical a Fanfarra Real de Sofia, executada sempre que S. A. R. o Príncipe Monarca aparece em público.
Falamos do Prelúdio do Te Deum, de Marc-Antoine Charpentier.
Viva a monarquia! Viva a Flor-de-Lis!
***
Prelúdio do Te Deum
M. A. Charpentier
Sábado, 27 de Junho de 2009
- La Fleur de Lys, fleur de haut prix -
Se você ouvir falar de uma batalha, você provavelmente conseguirá imaginar as cenas de guerra, os tiros, o som dos canhões, o lamento dos perdedores, etc. Sim, todos conhecemos batalhas através do cinema, da TV, de fotos em revistas, jornais, sem falar na internet e outros meios.
Agora imagine uma pessoa no começo do século XVI (por volta de 1500), que não tinha nenhum desses recursos tecnológicos e que, excluindo os soldados e as pessoas que porventura fossem assoladas pela guerra em sua terra natal, a maior parte do povo não sabia quais eram o clima e os sons de uma batalha!
Mas não contavam com a astúcia de um dos maiores compositores da renascença: o grande, o indescritível, o primeiro e único Clément Janequin! Esse rapaz, nascido em 1585, conseguiu um feito brilhante. Traduzir em música os sons da artilharia em uma batalha. A batalha em questão é a Batalha de Marignano, onde a França e a República de Veneza lutaram contra os suíços pelo domínio do ducado de Milão.
A perfeição com que Janequin retrata os sons é quase tão incrível quanto a habilidade com que ele transforma esse material em música. Na primeira parte os cantores convocam todos a ouvirem a vitória do rei Francisco I, e descrevem toda a preparação para a luta. Na segunda parte começam propriamente os sons da guerra, com tiros de armas de fogo – as quais só recentemente haviam chegado com força aos campos de batalha - , especialmente os canhões.
Mas a obra ainda lembra um pouco do espírito sofista. Sim. É emocionante quando o tenor anuncia que “A Flor de Lis, flor de alto preço, está lá em pessoa”. Ele se refere ao rei Francisco, que comandou seus exércitos com sua própria espada, tendo sobre a cabeça a honrada coroa da Flor de Lis, símbolo máximo da monarquia francesa.
***
LA BATAILLE (1515)
Escoutez, escoutez tous gentilz gallois
La victoire du noble roy François.
Et orrez (si bien escoutez)
Des coups ruez de tous costez.
Soufflez, jouez, soufflez toujours
Tornez, virez, faictes vos tours
Phifres soufflez, frappez tabours
Soufflez, jouez, frappez tousjours.
Adventuriers, bons compaignons
Ensemble croisez vos tromblons
Nobles, sautez dans les arçons
La lance au poing, hardis et prompts.
Alarme, alarme, chacun s'assaisonne
La fleur de lys, fleur de haut prix y est en personne
Suivez François la fleur de lys, suivez la couronne
Tricque, bricque. chipe, chope, torche, lorgne.
Bruyez, tonnez gros courtaults et faulcons,
Sonnez trompettes et clairons
Pour resjouir les compaignons
Boute selle, boute selle donnez des horions.
A mort, à mort, courage prenez, frappez dessus
Gentils galants soyez vaillants, fers émoulus
Zin zin zin, ils sont défaicts, ils sont perdus.
Frappez, tuez, rompez, ils sont confus.
Victoire, victoire, tout e ferlor
Bi gott descampir la tintelore
Victoire, victoire, au noble roi François.
***
Outra versão:
LA BATAILLE (1515)
Escoutez tous, gentils Gallois,
La victoire du noble roi François
Et orez, si bien escoutez,
des coups ruez de touts costés.
Fifres soufflez, frappez tambours,
Soufflez, jouez, sonnez toujours.
Tournez, virez, faites vos tours,
Soufflez, jouez, sonnez toujours.
Avanturiers, bons compagnons,
Ensemble croisez vos bastons.
La lance au point, hardis et prompts,
Nobles sautez dans les arçons,
Hardis comme lyons.
Donnez dedans, frappez, criez
Allarme, allarme, allarme.
Chacun s’asaisonne, chacun se saisonne,
La fleur de lys, fleur de haut prix
Y est en personne.
Sonnez trompettes et clairons
Pour réjouir les compaignons
A l’étendard tost avant
Boutez selle, boutez selle.
Bruyez bombardes et canons
Pour secourir les compaignons.
Courage, donnez des horions
Tue, tue, tue, chipe, chope, torche,
A mort, à mort, donnez dessus
Frappez dessus, ruez dessus,
Ils sont perdus, ils sont confus.
Victoire au noble roi François !
***
Sábado, 4 de Outubro de 2008
No reino das Amazonas
Em 24 de junho de 1542 um encontro marcante foi travado nas águas do maior rio do mundo. Segundo o frei Gaspar de Carvajal a expedição espanhola comandada por Francisco Orellana enfrentou, nesta data, índias guerreiras que lutavam bravamente. Imediatamente o frei e os homens da expedição associaram essas mulheres a uma antiqüíssima lenda grega, um mito que povoava a mente européia com incrível persistência: a lenda das Amazonas.
Na antiga mitologia grega, as amazonas eram mulheres guerreiras que teriam vivido na Ásia-Menor (atual Turquia), governadas por uma rainha - sendo Hipólita a mais famosa. Essas mulheres apareceram nas obras mais importantes da literatura grega, desde Homero até Heródoto, e em vários mitos populares.
O encontro dos espanhóis com as mulheres guerreiras no século XVI despertou naqueles homens a lembrança dessa lenda, e foi narrada com entusiasmo no relato escrito pelo cronista Carvajal, intitulado Relación del nuevo descubrimiento del famoso Rio Grande que descubrió por muy gran ventura el capitán Francisco de Orellana. A história logo chegou à Europa, na corte do imperador Carlos V, e de lá se espalhou rapidamente. Houve quem reprovasse a associação destas guerreiras indígenas com o mito grego, pois a existência de mulheres guerreiras no Novo Mundo já fora comprovado em outras expedições e não era novidade – por exemplo o historiador Lopez de Gomara – mas a força da lenda ajudou a reforçar e fixar este novo mito na cultura popular.
Ainda hoje se discute se o encontro entre a expedição de Orellana e as amazonas foi real ou fictício. Alguns historiadores acreditam que o relato foi inteiramente forjado pelo cronista dominicano para dar mais emoção à sua crônica, ou para justificar as ações de seu comandante. Outros acham que não se tratavam de mulheres guerreiras, mas de homens. As fontes apresentadas por Carvajal, colhidas antes do encontro – o depoimento de índios da região, que já haviam prevenido os espanhóis sobre as bravas senhoras – são baseados em frágeis traduções. O certo é que todo o episódio revela mais sobre a visão européia do Novo Mundo do que sobre a existência ou não da poderosa tribo feminina.
O fato é que a mistura de um mito antigo com um relato novo deu muito certo. Logo após as notícias chegarem à Europa, o nome do Grande Rio em que se deu a batalha foi mudado de Santa Maria de la Mar Dulce para Rio de las Amazonas. E não somente o rio – comprovadamente o maior do mundo – mas toda a região recebeu o nome das mitológicas guerreiras – a Amazônia – e que abriga a maior floresta tropical do planeta, a qual, também, herdou seu nome do mito – a Floresta Amazônica. Hoje ainda várias províncias e Estados da região possuem o nome das mulheres indígenas, conhecidas como Icamiabas. O local onde houve a batalha entre espanhóis e amazonas hoje situa-se no extremo leste do Estado do Amazonas, no Brasil.
Como não pode deixar de acontecer, as amazonas americanas foram retratadas pelas artes européias. Pinturas, gravuras, esculturas e livros trataram desse assunto. E a música não ficou de fora. Entre as aparições das guerreiras na história da ópera, destacamos duas das mais interessantes.
J. Ph. Rameau e as amazonas
Em 1735 Jean Philippe Rameau estrou sua segunda ópera, Les Indes Galantes. A ópera,
apresentada na Academia Real de Música, possuía um prólogo e 3 Entrées. Depois de algumas revisões, no ano seguinte foi incluída uma quarta Entrée. A primeira e a terceira Entrées se passam na Turquia e na Pérsia, respectivamente. A segunda tem lugar no Peru, no fim do império Inca. A quarta, a que nos interessa, passa-se numa floresta americana. Como era comum nas óperas-balé francesas do século XVIII, a exposição de várias danças era essencial ao espetáculo. E no final desta quarta entrée, pouco após a famosa dança do Grand Calumet de la paix, rameau colocou dois minuetos dedicados aos índios guerreiros e... às amazonas.
W. A. Mozart e as amazonas
Agostino Accorimboni estreou em 1783, em Parma, uma ópera chamada Il regno delle Amazzoni. A comédia tratava de uma aventura de exploradores europeus na Amazônia, no início da época colonial. O libreto fora escrito por Giuseppe Petrosellini.
Mas dessa mesma época, ou pouco depois, data um terceto de Mozart, que é justamente a primeira cena da mesma ópera. O terceto para tenor e dois baixos, Del gran regno delle Amazzoni, foi registrado no catálogo Köchel sob o número 434. É possível que fosse um projeto para uma nova ópera, mas não se sabe ao certo quais os planos de Mozart. O que ficou para nós foi uma belíssima peça de música, que nos dá uma idéia da genialidade tão simples e marcante do grande compositor de Salzburgo.
Como brinde, o minueto de Rameau e o terceto de Mozart.
...
Brinde musical
...
J. Ph. Rameau
Les Indes Galantes
Menuet pour les Guerriers et les Amazones
...
W. A. Mozart
Del gran regno delle Amazzoni
...
Del gran regno delle amazzoni
ecco il sito ho ritrovato
Questo è il fiume rinomato
ecco i monti del Peru
In quest'anno il vento Zeffiro
Soffierá matina e sera:
Dunque il grano a primavera
Presto, presto verrà su.
Per amor di Livia cara
son qui giunto all'improviso;
Que' bei sguardi, quel bel viso
ah potessi vagheggiar.
Son le amazzoni gran donne!
Che alma nacco! Che portenti!
Belle teste! Bei talenti!
di più no si può far!
...